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O que os animais nos podem ensinar sobre como superar a tirania?

O que os animais nos podem ensinar sobre como superar a tirania?

Da brutalidade dos babuínos à surpreendente calma de algumas espécies de macacos, investigadores acreditam que o mundo animal oferece exemplos claros de como o poder tirânico surge, se mantém e, em alguns casos, pode ser evitado.

RTP /
Christophe Simon via AFP

A tirania não é um exclusivo humano. Muito antes de nomes como Stalin ou o líder chinês Mao entrarem para a história, ditadores já governavam no reino animal, impondo-se pela força, pelo medo e pelo controlo dos recursos, de acordo com a BBC.

Um dos exemplos mais emblemáticos surgiu num laboratório improvisado no Reino Unido, nos anos 1950, protagonizado por um rato. Chamava-se Bill e era observado pelo ecologista Peter Crowcroft numa antiga base aérea em Inglaterra.

O rato Bill revelou-se rapidamente um líder violento. Quando foi apresentado a outro rato, Charlie, o desfecho foi imediato. 

“Não estava preparado para a selvajaria brutal com que Bill se lançou sobre Charlie no primeiro instante”, escreveu Crowcroft no livro Mice All Over. 

Bill venceu o confronto e tornou-se um tirano. Crowcroft passou anos a documentar o comportamento autoritário de Bill, traçando paralelos inevitáveis com os humanos. 

“Quanto mais observava os ratos, mais reconhecia elementos do comportamento dos meus semelhantes”, escreveu. 

A experiência, inicialmente criticada como desperdício de dinheiro público, viria a influenciar gerações de investigadores. Hoje sabe-se que o despotismo - forma de governo onde um único governante que detém poder absoluto - é comum em muitas sociedades animais.

Babuínos, ratos-toupeira-nus (mais comuns no continente africano) e até formigas vivem sob hierarquias de domínio, em que um elemento - ou um pequeno grupo - controla o acesso à comida, à reprodução e às decisões do grupo.

Este tipo de poder torna-se particularmente forte quando os subordinados não têm alternativa, de acordo com investigadores citados pela BBC. 

“Eles ficam e suportam déspotas terríveis”, explica a antropóloga Laura Betzig, referindo-se a espécies em que abandonar o grupo pode significar morte certa por falta de alimento.

Nos babuínos chacma, estudados no sul de África, o domínio pode assumir contornos extremos. Um estudo mostrou que as decisões do grupo são lideradas pelo macho dominante, aquele que mais beneficia delas.

A ecóloga comportamental Élise Huchard descreve perseguições violentas de fêmeas para forçar o acasalamento: “Vimos uma fêmea muito grávida ser perseguida até cair de uma árvore. Abortou no dia seguinte”.
O outro lado da opressão
Um estudo publicado em 2004 revelou uma transformação numa população de babuínos-oliveira- éspecie de macacos. Nos anos 1980, um surto de tuberculose matou sobretudo os machos mais agressivos. Os sobreviventes eram mais pacíficos e criaram uma sociedade com uma hierarquia mais “relaxada”. Comportamento que persistiu durante gerações.

Outros exemplos mostram que a opressão pode “sair pela culatra”. 

Uma espécie de formiga da América do Norte, sequestra larvas de outras colónias para as escravizar. Mas, por vezes, as formigas escravizadas revoltam-se e matam os seus captores. 

Para a antropóloga Marcy Ekanayake-Weber, a distribuição desigual de recursos também ajuda a explicar o aparecimento de ditadores. Quando poucos indivíduos conseguem monopolizar alimento ou território, o poder concentra-se.

O mesmo padrão aparece em estudos históricos de sociedades humanas, onde líderes masculinos acumulavam riqueza, poder e acesso a múltiplas parceiras- “não muito diferente dos babuínos tirânicos”, nota Betzig.

Mesmo em espécies conhecidas pela agressividade, o contexto faz a diferença. O cientista Justin Varholick, que estudou ratos em laboratório, concluiu que a posição hierárquica pode mudar conforme o grupo.

“As relações sociais nas jaulas não são iguais. Dependem muito de quem lá está”, afirma Varholick.

Ainda assim, o mundo animal também oferece um modelo alternativo. No Brasil vive o muriqui-do-norte, descrito como o primata mais pacífico do planeta. Não há déspotas, a violência é rara e os recursos são partilhados.

“O padrão entre os muriquis é paciência e tolerância”, explica a primatóloga Karen Strier, que os estuda há décadas. Se dois indivíduos encontram comida ao mesmo tempo, um espera calmamente enquanto o outro se alimenta. “Eles parecem abraçar-se mais do que lutar”.

Strier nota ainda que machos e fêmeas têm tamanhos semelhantes, o que dificulta a dominação física. Talvez, sugere, a agressividade simplesmente não compense nesta sociedade. 

“Pode haver razões pelas quais a agressão não funciona”, afirma. "Tudo depende do comportamento e do ambiente”.

Em ambientes confinados, a tirania tende a emergir com mais facilidade.
Poder institucionalizado

Outras espécies mostram até que ponto o poder pode ser institucionalizado.

Nos ratos-toupeira-nus, apenas a rainha se reproduz, impondo-se através de empurrões e agressões. Nas formigas, a rainha usa a “força” para destruir ovos de rivais. E nos mangustos-listrado- um género de suricata- as fêmeas dominantes chegam a declarar guerra a grupos vizinhos para garantir descendência mais forte - mesmo que isso custe vidas.

Ainda assim, os investigadores sublinham que observar estes comportamentos é um exercício de compreensão.

“É assim que nos compreendemos a nós próprios: estudando outras sociedades animais”, resume Varholick, reforçando que os humanos prosperam quando cooperam.

Também na investigação do australiano Peter Singer sobre Libertação Animal: Ética e Razão contra o Especismo, é defendido que a libertação animal ensina que o fim da tirania exige um altruísmo puro, pois os humanos devem reconhecer que a sua posição é moralmente injustificável sem serem forçados a isso por uma revolta das vítimas.

Numa época em que movimentos de tirania são cada vez mais discutidos na Europa e no mundo, a natureza mostra que a tirania pode emergir, mas não é inevitável. Onde há mobilidade, partilha e cooperação, o poder absoluto perde força, como defendem investigadores.

Como resume Strier, após uma vida a observar primatas: “Ver outro primata viver de forma tão pacífica é uma inspiração. É um vislumbre de uma outra forma de vida a que podemos aspirar”.
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